quarta-feira, 28 de novembro de 2012

domingo, 25 de novembro de 2012

Em nome do pai


“Sally! Sally!”
“Adam! Graças a Deus você está bem, eu fiquei horas...”
“Ok Sally, ok. Vá se tranquilizando. Eu estou aqui agora.”
Sei que já se tornou parte da minha rotina, mas ver Sally saindo pela porta com aquele sorriso desenhado no rosto, enche meu corpo de orgulho. Orgulho por ter encontrado uma garota assim. Meu orgulho só aumenta quando desço do cavalo e ela vem correndo me beijar.
“Oh Adam, eu não sabia mais o que fazer. Fiquei rezando para que você chegasse são em casa.”
“Eu sei querida, mas ficarei poucos dias e então irei partir. As coisas não vão ficar assim.”
“Não meu amor, por favor, deixe isso pra lá. Nós vamos encontrar uma saída, sempre podemos voltar.”
Não, nós não podíamos, eu havia vendido cada pedaço de terra que havíamos possuído.
Eu e Sally nos conhecemos e casamos em Gordburd, ao sul de Jersey, e lá vivíamos em uma pequena cabana perto do centro. Não tínhamos muito alem de um ao outro, mas éramos felizes. No ultimo inverno nossos problemas com dinheiro foram aumentando gradativamente e eu não conseguia nenhum trabalho fixo. Tudo estava muito difícil até que os Buckness, uma família empreendedora de Ohio, comprou um grande lote de terras no Oeste e havia se mudado para lá. Eles estavam contratando um grupo de pessoas para ocupar e cuidar de diversas partes do grande lote. Eu aceitei a proposta, na promessa de que iríamos viver ali enquanto o céu fosse azul, o pasto fosse verde e o vento soprasse de todos os lados, mas parece que existem dias em que o céu não é mais azul, o pasto seca e o vento não sopra de nenhuma direção. Os Buckness voltaram atrás nas promessas e tão rápido quanto chegamos já nos queriam ver partindo. Mas eu não vou deixar que eles me façam de tolo. Eu vivi minha vida inteira de acordo com as regras, digamos que era isso que eu estava fazendo errado.
Aceitei uma verdade que todos sabiam, mas ninguém admitia: a justiça no Oeste Selvagem só era feita com o apertar de gatilhos de Colts e Winchesters.
Juntei uma milícia de homens descontentes com os Buckness para o bem de nossas famílias. Uma noite, saímos armados em direção a um pequeno vale onde ficava a residência dos Buckness. Eu dei uma desculpa qualquer para que Sally não soubesse de nada e assim não se preocupasse.
Chegando às beiradas do vale, jogamos coquetéis Molotov na casa, fazendo com que a madeira nas paredes estalasse e ardesse em chamas. Algumas pessoas saíram gritando e pegando fogo, outras com revólveres, que foram rapidamente fuziladas por nós. Enfim acabamos com todos eles. Enfim poderíamos viver nossas vidas em paz. Ver os Buckness em terror e ardendo em fogo foi algo lamentável, mesmo sendo eles que estavam destruindo nossas vidas. Que Deus me perdoe, tudo que eu fiz foi por Sally. Foi para ver seu rosto até meu ultimo suspiro. Foi para algum dia, eu ouvir a doce risada de nosso filho. Foi pela nossa vida.               Nick & J.Kley

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Notas um segundo melhor?



Debruçado sobre a mesa, eu comecei a fitar a janela do meu quarto, de persiana fechada, até que meu olhar captou as pequenas gotas de chuva que se acolheram no vidro ao entardecer. Elas refletiam a luz da lâmpada. Tinha uma constelação inteira na minha janela Não existia muito de mim nesse quarto, passo mais tempo brincando com as ideias que surgem na minha mente do que me distraindo com algum artigo perdido no meu armário.
Em uma dessas viagens, eu acabei olhando para o canto e vi a TV desligada. Ela não era nem tão grande e nem tão pequena. Era aquele cubo cinza com uma tela preta a qual não estávamos mais acostumados a ver. Sem pensar, eu pressionei o botão verde e a caixa cinza começou a emitir um som, uma frequência de vibrações, aquela que nos preparava para as cenas que estavam por vir. Então, estática: os milhares de pixels gritavam e corriam pelos
quatro cantos da tela, sem saber aonde iriam chegar. Eu sentia falta disso. Desliguei a TV e me deitei no sofá. Pensar deveria ser considerado um sentido, afinal é a nossa mente que nos faz perceber os outros cinco. Podia ouvir o rádio sendo ligado no outro cômodo. Havia tido uma boa refeição no almoço. Azul, rosa, verde. Esses rostos emoldurados na prateleira me incomodavam, não paravam de me encarar. Minhas roupas estavam muito amassadas. Essas eram as minhas opiniões, mesmo sendo tudo tão relativo. Pessoas estão sempre dando suas opiniões sobre coisas de caráter tão aberto a distintas interpretações. Sinto-me na necessidade de pedir para que façam a fila até serem chamadas.
Parecia ser outro dia.
Acabei dormindo por algumas horas e acordei sentindo, com a ponta dos meus dedos, a cruz que estava em meu pescoço. Gosto muito dela, apesar dos significados que atribuem a sua existência e das alegrias e dificuldades que eu tenho que passar por causa deles. Pergunto-me: “O que os ateus diriam sobre alguém de pouca fé, usar uma cruz com gosto e segurança?”
Talvez eles fossem dizer que a minha falta de conhecimento reflete a inconsistência da religião, a qual acreditariam que eu seja adepto. E ainda: “O que os cristãos diriam sobre eu usar uma cruz e ainda festejar e questionar tanto, usando de interpretações que não são as predeterminadas por eles?”. Minha falta de fé e minha negação de ver as coisas como elas realmente são apenas mostram o quão fora do caminho eu estou. O que diria Jesus se eu perguntasse “Posso usar tua cruz nesse mundo como ele é?”.
                                                                                                                                                          -Nick

sábado, 3 de novembro de 2012

1 = 2 + 1/2 = 0


De quando um você tira dois, que com mais meio ainda assim da zero. Digamos que eu estivesse lá. Aceitemos a hipótese de que a arte da ocasião pendeu para o lado que vocês já imaginam. Vocês realmente acham que eu, eu mesmo seria a pessoa escolhida para participar de infortunada situação?
- Do que você está falando? O que aconteceu depois que todos saíram da festa?
- Hahaha. Estou só brincando com vocês. Já vou continuar a história.
 “Faltava em torno de uma hora para que uma quantidade considerável de pessoas chegasse à casa da Tati. Eu odeio ser uma das primeiras pessoas a chegar, me traz uma sensação de desconforto descomunal.”
 - Você passou a tarde lá com seis pessoas e a Tati.
- Eu sei! Não me interrompam, estava preparando vocês para o contexto.
“A sensação era um tanto parecida. Eu já estava no local e eu já a tinha visto falando com a Tati e algumas outras pessoas diversas vezes. Mas, foi engraçado perceber depois que sua presença não havia sido sentida por mim. Ela sentava, ria, encarava e se mexia. Era tudo tão bonito, tudo tão simplesmente simples.”
- Vá direto ao ponto. Já sabemos onde isso vai dar.
- Vocês não tem a menor noção. Quando a festa começou, eu estava no andar de cima conversando com meus colegas da natação. Aquilo levou um bom tempo para se concluir e não foi uma conversa que tenha me agregado muita coisa. Eu desci, sem a menor das expectativas de fazer com que a festa fosse valer a pena ou de me divertir. Não era nem mais, nem menos. Foi nessa descida que eu a vi: de pé, de frente para a pequena mesinha brega de vidro, dando as costas para tudo.
“Eu não me lembro ao certo como cheguei à parte que irei agora contar. Acho que me desliguei e me tornei um mero personagem que seguia um script cravado no meu subconsciente. Sei que parece estranho, mas, se esforcem em acreditar. Fui em direção àquela menina, que não mais sentava, ria, encarava e se mexia. Ela estava outra. Em nenhum outro dos milhares de dias que eu a havia visto antes eu me lembro dela ser aquela que ela era naquele momento... Que coisa gostosa!
- Obrigado, minha mãe que fez. Foco! Continue...
- Certamente. Quando me aproximei, ela me olhou através de seus negros olhos e eu a fitei com uma sinceridade a qual não sou capaz de reproduzir. Ainda mantendo o script, começamos a compartilhar frases que nunca haviam sido proferidas antes. Ela havia decorado suas falas e eu as minhas, sem contar que nosso timing estava perfeito. Nós sentamos no sofá que estava ao nosso lado e mantivemos aquela encenação por mais umas três ou quatro palavras, até que ela agarrou meu braço, com medo. Foi aí que eu lembrei com quem eu estava falando e a da situação que acabaria ocorrendo: aquela menina tinha medo de gente.
- Sem extras. Pule para o final.
- Não posso perder esta chance.
Ela então soltou o meu braço para novamente agarrá-lo. Como ela tinha medo de gente! Olhamos um para o outro e lentamente fomos deitando no sofá, tão perdidos no que quer que fosse o momento. Nós acabamos desconsiderando as duas outras meninas que ali estavam sentadas. Ela olhou para as duas e pediu que ambas se retirassem, já que tomaria parte um acontecimento de importância estelar e precisávamos consertar as variáveis: palavras fortes para alguém que sempre tivera medo de pessoas. As meninas se retiraram com um rosto desaprovador, que não poderíamos ter ignorado mais.
Estávamos completamente no Sofá, quando vi a garota que havia tomado o corpo daquela menina que tinha medo de pessoas.
- Já entendemos essa parte.
- Creio que ainda não fui claro ao quanto medo de pessoas aquela menina tinha.
Então aconteceu: não havia mais diferença entre uma e outra pessoa. Estávamos juntos e aquilo não poderia ser mais certo. Eu estava feito, completo. Cada centímetro do mundo tinha seu lugar.
Não foi a festa inteira assim, por partes levantei e tomei um ar, falei com poucas pessoas e, mesmo que eu não me sentisse culpado, eu falei com Tati porque não queria ser inconveniente. Foi então que eles chegaram.
- Finalmente.
Todos viram de longe aquele exato carro, tocando aquele exato som. E todos suaram frio. A música foi desligada e a porta dos fundos foi tomada por uma superlotação inesperada. Segurei a mão dela com toda minha força. Depois procura-la por anos, nos quais ela se escondeu atrás daquela menina que tinha medo de gente, não poderia perdê-la agora. Havia uma janela de um quarto no primeiro andar que poucos deveriam saber da existência. Seria fácil pular. Entramos no quarto e nos deparamos com dois rapazes que foram tomados de surpresa quando eu entendi a situação.
Um deles era muito parecido com Bruce Springsteen, já o outro eu creio que era o intercambista da sala 23. Gritei para que eles saíssem logo pela janela conosco, o tempo estava correndo. Passamos pela janela e subimos pelo morro de trás da casa. Algumas pessoas iam para a mesma direção que nós, outros apenas corriam para o outro canto do planeta almejando por segurança.
Já fazia alguns minutos que estávamos correndo, então pensamos que já estávamos seguros ali. Os rapazes sentaram-se a alguns metros de nós e terminaram o que haviam começado. Eu só conseguia segurar sua delicada mão. Comecei a sentir um cheiro de queimado: era o telhado. Ah, pobre Tati...
Creio que nem ela se importava muito, já que estávamos ali, um com o outro, dali pra frente para sempre, movidos pela vontade de existir.
- E vocês ficaram ali, vendo a casa queimar? Qual é o seu problema?
- Ela estava linda.
                                                                                              - Nick

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Uma Quarta-Feira qualquer.



-Me desculpe eu...
-Chega Dex, você sabe que ela não quer falar com você. Quem sabe um dia isso vai passar, sei que já faz muito tempo, mas agora esqueça. Vá pra casa.
-É só que...
Vejo a porta fechando na minha cara enquanto ouço as fortes pisadas na escada ecoando pela casa. Não era pra ser assim, mas poderia ter sido pior. Sei do que ela é capaz. Fui voltando pela rua que era iluminada por milhares de velas. Tem algumas crianças ainda e está ficando tarde. Clichês à parte. Era uma noite de Halloween e a lua estava cheia e rodeada de nuvens cinza-escuro. Concluí que deveria parar de pensar nela, seria frouxo de minha parte. Sofrer demais é para os poetas.
Eu estava a duas quadras de casa, não tinha mais muitas velas na rua que eu estava passando, era quase um breu total. Foi aí que eu ouvi, vindo atrás de mim, o som de cascos de cavalo.
Virei-me bruscamente, era Cotard, ela montava um cavalo negro e carregava uma foice. Cotard, a que não queria falar comigo. Por mais que eu achasse inusitada sua presença repentina e extravagante, eu sempre soube que estava mentindo e nunca tinha deixado de pensar em mim. Nosso último encontro havia sido a dois Halloweens atrás, ela tinha me mostrado muitas coisas. Hoje ela apareceu mais pálida, como se fosse possível. Ela me olhou friamente, agarrou a foice com as duas mãos e disse de forma muito Clara: “Hoje te mostrarei a maior das verdades.”.
As poucas velas acessas se apagaram. Meu peito agora latejava de uma forma a qual eu nunca havia sentido. Agora eu sabia o motivo. Havia um buraco em meu peito do diâmetro de uma bola de tênis.
 Um tempo depois, acordo no mesmo local. Ponho a mão no peito e não sinto nenhuma cavidade presente, porem agora, tudo parece mais escuro e sombrio. Tento me levantar, mas não tenho força, me sinto fraco. Tudo está diferente, apesar de por fora tudo parecer igual. Por mais sombrio e escuro que esteja creio que nunca vi as coisas tão claramente como agora. Ainda deitado no chão, vejo um homem pálido e de terno preto vindo em minha direção. Sua pele parece podre. Ele me ajuda a levantar e pergunta se estou bem, respondo que sim, elogio sua fantasia e  agradeço a ajuda. Nos despedimos e sigo meu caminho para casa. Meu corpo está dormente, mas continua se movimentando como se ele apenas estivesse conectado a rotina. Leve, claro, tomado pelo sentimento de que nada mais posso fazer, pois o plano já não mais me pertence. Não sinto falta de nada, também não sinto vento em meu rosto ou a dor de meus calcanhares. Talvez eu fosse agora capaz de sentir tudo, menos eu mesmo. 
                                                - Nick, J. Kley, Kauwba e Mr. T.
¹Síndrome de Cotard, ou delírio de negação. Rara síndrome de fundo psicológico onde o paciente acredita estar morto, não reagindo a estímulos exteriores ou pessoas. Sensação de estar lentamente apodrecendo.  

sábado, 27 de outubro de 2012

Perhaps


Eu começo, termino, repito e mantenho. Talvez seja natural, talvez meu subconsciente pregando uma peça e sorrindo para mim. A única certeza que eu tenho é a de que aqueles dois anos carregam os dias mais preciosos que vivi. Aqueles em que você se sente completo e nada de ruim pode acontecer. Aquela felicidade que irá mexer com você sempre que relembrar cada segundo. Aqueles que fizeram minha integridade, meu centímetro mais importante.
Eu tinha uma vida boa, bons pais. Amigos dos quais eu gostava e gostavam e mim. Só vinha uma respostam em minha mente e era: Eu estava bem. Ainda assim, o que era bem naquela época? Faltava algo. Faltava um sopro de vida, um frescor do amanhecer. Algo que eu só encontraria além da estrada. Por isso eu parti. Troquei a segurança de casa pelas surpresas do desconhecido.
Eu não quis abandonar ninguém. Eu não me sentia muito mal e nem brava com alguém. Eu queria que as pessoas com quem eu passava meus dias, entendessem isso. Que compreendessem o verdadeiro motivo da minha fuga. Uma porta havia sido aberta e resolvi aproveitar. Não foi fácil, eu senti falta de alguns, mas quando o momento chegou, eu não hesitei em partir, era a coisa certa a fazer. Gostaria que ao menos uma pessoa entendesse isso.
Por dois anos eu conheci um novo mundo. Não precisei de mapas nem guias porque, eu finalmente havia me encontrado. Sentia a mim mesma no espaço. Conheci novas pessoas e por dois anos seus sorrisos foram meus por-dos-sóis. Não existia uma guerra em meu subconsciente. Minhas ações fluíam. Presenciei a liberdade de ir aonde eu sentia que era melhor. Eu fui capaz de sonhar e tornar tudo em realidade. Arriscando até meu último centímetro.
Quando voltei, tudo havia mudado. Eu, os locais, as pessoas. Não fui mais a protagonista, agora eu era uma telespectadora, mas isso não me incomodava. Novamente eu estava em outro mundo, conhecendo outras pessoas (já que as antigas não mais me eram próximas), vivendo e dentro de um balanço como o do oceano.
Alguns dias atrás um velho amigo veio me visitar. Ele apareceu com perguntas normais: Por que eu havia partido? Por que sua garota favorita o havia abandonado? Eu sorri, como sempre fiz com ele, e respondi com o que eu havia vivenciado. Ainda questionado se eu não havia me arrependido de nada, ele perguntou se eu faria tudo de novo caso fosse possível voltar àquela exata noite em que parti. Talvez eu pudesse ter ficado lá. Talvez eu pudesse ter ficado aqui e aprendido a viver por estes campos. Talvez. Eu sei que a maioria das pessoas que conheci irá mudar e sei que isso serão apenas memórias, mas eu não me importo. Eu amo o “eles” daqueles momentos porque, por dois anos eu fui feliz e não devi desculpas a ninguém.  Aproximei-me calmamente de seu ouvido e sussurrei “Claro que sim”.
                                                                                                                                                       -Nick

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Fui visitar os fantasmas e eles não queriam mais reclamar.


Eram 23h37min. Não estava frio, mas de tempos em tempos passava uma brisa que penetrava na minha alma. Eu poderia estar dormindo, é sábado, mas ao invés disso eu estou preso neste cemitério. Um lugar que me incomoda, para impressionar uma garota que não me agrada, pela insistência de amigos que eu desgosto.
Estávamos vagando pelos arredores da cidade havia umas duas horas. Tudo era pra ser apenas mais uma noite em que esses adolescentes de mente mal desenvolvida iriam danificar alguns bens públicos, beber até não sentir o próprio rosto e achar que tem o universo todo aos seus pés. Se não fosse por um deles ter dado a incrível ideia de visitar um cemitério no meio da noite. Obrigado a dois adolescentes despreocupados nos anos 90 por trazerem este exímio exemplar de ser humano à vida.
Fico tentando imaginar algo que tenha um tamanho proporcional a sua mediocridade. Bill murmura alguma piada de duplo sentido pra mim e faz com que todos comecem a rir. Por que você não explode Bill? Por que você não simplesmente desaparece com o poder da minha mente? Eu poderia gritar isso na cara dele, eu poderia avançar em todos que seus lentos reflexos não me alcançariam. Poderia até sair correndo pra casa e provavelmente ser sequestrado, mas ao invés disso, eu simplesmente dou uma risada leve, não curta, leve.
São 23h29min. Meu relógio só pode estar de brincadeira comigo. Tasha começa a vomitar perto de um portão. É-me indiferente. Ela sempre é a primeira, mas devo admitir que desta vez seu ápice foi alcançado com mais rapidez que as outras vezes. Todos ficam rindo enquanto ela bota pra fora toda a angústia que secretamente eles carregam. Angústia, ou simplesmente sua última refeição. Difícil saber.  Que nome horrível.
Alguns minutos passam, menos do que eu gostaria, até que chegamos à parte com as sepulturas interessantes. Estátuas de figuras que alternavam entre anjos e demônios. Minha sincera opinião: É um cemitério legal, é daqueles que você vê nos filmes, a diferença é que as estátuas não estavam em uma grande batalha ou nos arrastando para o inferno.
Eu sabia que a noite iria acabar e que eu poderia ir para casa, só que mesmo assim a angústia de estar naquela situação superava qualquer certeza. Sentamos no chão formando um circulo onde todos, sob efeito do álcool, começaram a falar suas descobertas redundantes. Aquela cena era tão ridícula que me eu sentia um câncer crescendo dentro de mim. Alastrando-se pelo pouco bom senso que me restava. Afinal de contas, eu estava ali, não estava?
E ali estávamos todos sentados, eles jogando aquelas palavras desenfreadas pra fora, eu ouvindo até imaginar meus ouvidos sangrando, quando Jeanne (a garota gótica e magricela que tentaram jogar para cima de mim porque ela tem algum desejo incansável de atirar-se em garotos aparentemente “quietos”) começou a rir, mas eu digo rir mesmo. Passou a rir tanto que eu não aguentava mais e minha cabeça ia fazer-se em pedaços. Uma risada tão bizarra que até o subconsciente dos outros os fez acordar, mesmo que por uns segundos para tentar entender o que estava acontecendo. Ela continuou rindo e rindo, até soluçar e voltar a rir. Rir tanto que o ar não tinha mais tempo nem espaço de entrar em seus pulmões. Ela riu até não poder rir mais, nem nada mais. Ela agora estava estirada no chão com aquele sorriso diabolicamente perturbador enquanto todos a encaravam, eu esperava que ela fosse acordar e voltar a rir... Esperei e fui decepcionado. Minha respiração começou a ficar ofegante, Lina e Tasha começaram a gritar e chorar, Todd estava muito além da consciência pra entender a situação, Bill começou a gritar com as gurias. Por uma fração de segundo, eu senti uma espécie de medo que não conhecia. Ficamos todos de pé e perguntas óbvias, gritos e ideias foram sendo expelidas por cada um. Tudo tinha uma redundância tão grande que a raiva que eu sentia com aquelas pessoas só foi voltando. Checam o pulso inexistente de Jeanne enquanto eu tento não olhar para aquele sorriso, aquele sorriso que começava a ser esculpido na minha mente e eu provavelmente nunca iria esquecer. As garotas continuavam a chorar até que Todd, que parecia haver chegado à situação deu a ideia de que a enterrássemos. Era um cemitério, ninguém iria procurar lá, é só mais uma sepultura no meio de milhares. Havia pás e bastante espaço. Bastaria negar qualquer relação que tivéssemos com o desaparecimento daquela garota que não iria fazer muita falta no mundo, bem talvez seus pais, mas muitos pais são obrigados a passar por isso. Poderíamos simplesmente entregar seu corpo, receber toda a culpa, e com uma grande probabilidade sermos os notáveis responsáveis pela morte dessa garota que tinha tantos problemas quanto o planeta em si. Alguns minutos se passavam, mas eu não sentia. As gurias soluçavam vomitavam, Bill chorava como se fosse uma delas, Todd... Todd estava sem expressão e cavava a cova. Jeanne mantinha seu sorriso, aquele que eu não consigo esquecer. Não pense que eu tomava a situação com tranquilidade ou tanta indiferença, talvez eu simplesmente não entendesse a gravidade do que aquele grupo infeliz estava fazendo e eu estava testemunhando esse tempo todo. Talvez a imagem não estivesse clara por completo. Eram 00h45min e eu vi. Eu entendi e eu só fiquei calado.

                                                                                        -Nick

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Faces




O número de faces na sala vai aumentando. Todas com suas diferentes características, porem no fundo todas iguais. Nenhuma parece ter vontade de estar ali, nenhuma realmente expressa o que gostaria. Presos numa sala onde o tempo não passa, ela te desgasta e te irrita. Todos presos ali sem rumo, se preparando para o desconhecido,  porque é o que precisa ser feito. Se questionando sobre o futuro, reclamando do presente e nostalgicamente relembrando o passado. Esta sala esta ficando velha e lotada. Há anos continua sem mudanças, igual. A sala precisa de uma reforma de um ar novo, que não sufoque, de um tempo que não desgaste e de novas faces, sem máscaras. Ninguém gosta dessa sala, porem ninguém vive sem ela, ela sempre deu um lugar a essas faces e elas um dia, sentiram sua falta.
                                                            -Mr. T

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Metamorpheus

Havia um pouco de nanquim restante no bico de pena quando eu estava desenhando, daí peguei um pedaço de papel e esse cara aí surgiu.

 - J.Kley

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Primeiro Dia do Resto da sua Vida


A gaveta empoeirada se abre, dela sai um envelope pastel e do envelope pastel sai uma folha:
Ontem (ou para os que procuram os defeitos ainda hoje) as 03h19 AM minha vida mudou. Finalmente encontrei o que procurava desde minha memória mais evanescida.
Meu nome é Kyle Jack e até onde posso lembrar sempre fui uma pessoa triste, uma tristeza com um índice variável, mas ainda triste, durante meus 8 a 11 anos minha falta de vida era muito mais notável, pois enquanto todos da minha sala escolar colavam papéis e riam, eu desenhava, amassava o papel, jogava fora, chorava e repetia o ciclo, eu não entendia como as pessoas podiam sorrir tão espontaneamente e não via a mesma graça na vida que eles, muito provavelmente.
Eu cresci e a única coisa que mudou com meu amadurecimento foi que cada vez mais minha tristeza foi se tornando mais anônima, não porque o resto também aderiu a minha forma de pensamento, mas porque as pessoas foram se acostumando com aquele menino que gostava de Star Wars. E é triste o caminho de viver ao invés de seguir o caminho do suicida em potencial, eu finalmente entendi a felicidade. (nada contra suicidas, eu não quero bancar o moralista religioso, pois estas são as coisas que mais odeio neste mundo, só estou citando dois caminhos, ambos podem ser caminhos bons ou ruins, só depende da sua visão de moral e a de mais ninguém, nenhuma organização ou doutrina).
Entendi o principal fundamento para deixar de ser triste: A felicidade, a qual a raça humana é obcecada por procurar e não existe, a felicidade não existe. Só a partir deste momento pude compreender que a felicidade é um estado momentâneo e a cada segundo ela nasce e morre, assim como os seres humanos. A felicidade vem do livro que foi lido, o filme que foi assistido, a noite de sexo que você teve (caso você não seja virgem como Jack), o programa de TV que foi assistido, a boa noite de sono dormida, a tarde passada com a namorada (caso você tenha uma), o jogo terminado, o gol feito (caso você jogue futebol), o texto escrito, a masturbação feita (caso...) deixa pra lá.
Esse texto será guardado em uma gaveta e aberto daqui a vinte anos, onde Kyle Jack do futuro poderá ler e notar como sua vida mudou após aquele dia, ou como ele estava iludido. Enganado e errado.
O papel volta para o envelope que volta para a gaveta que é fechada assim como a caixa que guarda a arma, que guarda a bala, que guarda uma vida inteira pela frente.
                                                                                      -Kauwba